O que é a tireoidite de Hashimoto?
A tireoide é uma glândula em forma de borboleta na frente do pescoço. Seus hormônios, T4 e T3, regulam o ritmo do coração, do intestino, da temperatura e do gasto de energia.
Na tireoidite autoimune descrita por Hashimoto, o sistema imunológico passa a reconhecer a tireoide como estranha e produz anticorpos contra ela. Células de defesa se infiltram na glândula e, aos poucos, parte do tecido que fabrica hormônio é substituída por inflamação e fibrose.
É a causa mais frequente de hipotireoidismo em regiões onde a alimentação tem iodo suficiente, como o Brasil, onde o sal é iodado. Afeta bem mais mulheres do que homens, é mais diagnosticada na vida adulta e tem peso familiar: é comum haver mãe, irmã ou tia com problema de tireoide.
Ter Hashimoto não significa ter hipotireoidismo. Muitas pessoas têm anticorpos positivos e exames de função normais por anos, às vezes pela vida toda. A causa (autoimune) e o estado hormonal (normal, baixo ou, raramente, alto) são avaliados separadamente, e cada um muda a conduta de um jeito.
Quais sinais levam a investigar a tireoide?
No começo, a doença costuma não dar sintoma nenhum, e a descoberta vem de um exame de rotina ou de um ultrassom pedido por outro motivo. Quando a função da glândula começa a cair, os sinais aparecem devagar e são fáceis de confundir com estresse.
Em uma minoria dos casos, logo no início, a inflamação libera hormônio estocado e provoca uma fase curta de palpitações e agitação, antes de a função voltar ao normal ou diminuir.
- Cansaço persistente, sonolência e sensação de lentidão para pensar.
- Intolerância ao frio, pele seca, unhas fracas e queda de cabelo.
- Intestino preso e inchaço, principalmente no rosto e nas pálpebras.
- Aumento do volume do pescoço (bócio), às vezes percebido ao fechar a gola da camisa.
- Alterações menstruais, dificuldade para engravidar ou perdas gestacionais.
- Histórico familiar de doença da tireoide, ou outra doença autoimune pessoal, como vitiligo, doença celíaca ou diabetes tipo 1.
Como se confirma a tireoidite de Hashimoto
O primeiro passo é medir a função: a médica pode solicitar TSH e T4 livre. O TSH é o hormônio da hipófise que "cobra" a tireoide; quando ela produz pouco, o TSH sobe. Esses dois exames mostram se a glândula está funcionando bem, no limite ou abaixo do necessário.
A causa autoimune é confirmada pela dosagem de anticorpos. O anti-TPO (antitireoperoxidase) está presente na grande maioria das pessoas com a doença, e o antitireoglobulina pode complementar. Um anti-TPO positivo indica autoimunidade, mas o valor do anticorpo não mede a gravidade e não precisa ser repetido a cada consulta.
O ultrassom da tireoide, quando a médica considera útil, mostra um padrão típico: glândula com textura heterogênea, mais escura que o normal (hipoecoica), às vezes aumentada ou com áreas que imitam nódulos. Ele ajuda quando há bócio, nódulo palpável ou dúvida diagnóstica. Se aparecer um nódulo verdadeiro, ele segue a investigação própria dos nódulos.
Quando tratar e como é o tratamento
Não existe remédio que desligue a autoimunidade da tireoide. Na prática, cuidar da tireoidite de Hashimoto significa tratar as consequências: repor o hormônio quando ele falta e acompanhar a glândula enquanto ela ainda funciona bem.
Tireoidite de Hashimoto com função normal: acompanhar
Com TSH e T4 livre normais, não há indicação de levotiroxina, mesmo com anti-TPO positivo e ultrassom alterado. O cuidado é repetir a função da tireoide periodicamente, em geral uma vez por ano, antes disso se surgirem sintomas e sempre que houver plano de gravidez.
Levotiroxina quando a função cai
Se o exame mostrar hipotireoidismo clínico (TSH alto com T4 livre baixo), a reposição com levotiroxina é indicada. No hipotireoidismo subclínico (TSH alto com T4 livre normal), a decisão depende do valor do TSH, da idade, dos sintomas e dos planos de gestação. A dose é individual e ajustada pelos exames de controle, nunca por conta própria.
Selênio e dieta sem glúten: o que diz a evidência
Alguns estudos mostram que o selênio pode reduzir os níveis de anti-TPO, mas sem benefício comprovado em evitar o hipotireoidismo ou melhorar sintomas, e o excesso é tóxico. Por isso ele não é recomendado de rotina.
A dieta sem glúten tem indicação clara para quem tem doença celíaca, que é mais frequente em quem tem Hashimoto e pode ser investigada. Fora desse caso, retirar o glúten não demonstrou controlar a doença.
Cuidado com iodo e suplementos "para a tireoide"
O excesso de iodo, presente em alguns suplementos e em cápsulas de algas, pode piorar a função de uma tireoide já inflamada. Leve à consulta a lista do que você toma, inclusive produtos naturais.
O que esperar do acompanhamento ao longo dos anos
É uma condição crônica, e o acompanhamento costuma ser para a vida toda, com consultas espaçadas quando tudo está estável. Quem já usa levotiroxina, na maioria das vezes, leva vida normal, com exames de controle e ajustes ocasionais da dose.
Doenças autoimunes tendem a andar juntas. Conforme a história, a médica pode solicitar exames para rastrear deficiência de vitamina B12, doença celíaca, diabetes ou alterações de outras glândulas.
A gestação merece cuidado especial: o anti-TPO positivo aumenta a chance de a função cair durante a gravidez e no pós-parto. Conversar com a endocrinologista antes de engravidar permite ajustar o plano com tempo.
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Perguntas sobre tireoidite de Hashimoto
Tireoidite de Hashimoto tem cura?
Não. A doença é crônica, e hoje não há tratamento que elimine a autoimunidade. Mas ela é bem controlável: muitas pessoas nunca chegam a precisar de remédio, e quem desenvolve hipotireoidismo costuma ficar bem com a reposição de levotiroxina e exames periódicos.
Anti-TPO alto significa que preciso tomar remédio?
Não. O anticorpo confirma a causa autoimune, mas o que define a necessidade de levotiroxina é a função da tireoide, medida pelo TSH e pelo T4 livre. Com função normal, a conduta é acompanhar. O valor do anti-TPO também não precisa ser repetido para guiar o tratamento.
Hashimoto engorda?
Depende. Com a função normal, a doença em si não muda o peso. Quando há hipotireoidismo, pode haver ganho de alguns quilos, em boa parte por retenção de líquido, que tende a melhorar com o tratamento. Ganho de peso grande raramente se explica só pela tireoide, e a avaliação metabólica ajuda a buscar outras causas.
Posso engravidar tendo Hashimoto?
Sim. A maioria das mulheres com a doença tem gestações saudáveis. O ideal é planejar: verificar o TSH antes de engravidar, ajustar a levotiroxina se já usar e repetir os exames logo no início da gestação, porque a necessidade de hormônio aumenta nesse período.
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Fontes e referências
- Approach to adult patients with primary hypothyroidism in some special situations: a position statement from the Thyroid Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, 2022.
- Clinical practice guidelines for the management of hypothyroidism. Latin American Thyroid Society (LATS), 2013.
- Guidelines for the treatment of hypothyroidism: prepared by the American Thyroid Association task force on thyroid hormone replacement. American Thyroid Association, 2014.
- 2017 Guidelines of the American Thyroid Association for the Diagnosis and Management of Thyroid Disease During Pregnancy and the Postpartum. American Thyroid Association, 2017.
Escrito e revisado pela Dra. Denise Linhares Pereira Göttsch, médica endocrinologista (CRM 20530/DF · RQE Nº 15968 · RQE Nº 17126). Revisado em . Conteúdo informativo: não substitui a consulta médica. Como produzimos este conteúdo.
